O voluntário que também se cura: efeitos do engajamento social e do serviço comunitário sobre a saúde de quem pratica
Yuri Silva Portela, fundador do projeto social Humaniza Sertão, elucida que o engajamento voluntário produz efeitos mensuráveis sobre indicadores físicos, mentais e sociais de saúde, especialmente quando praticado de forma contínua e com senso genuíno de propósito. O debate em torno dos benefícios do voluntariado costuma se concentrar no impacto sobre quem recebe, mas há um campo crescente de evidências científicas que aponta para uma direção menos óbvia: o ato de servir transforma profundamente a saúde de quem serve.
A seguir, apresentamos informações sobre o que a ciência revela quando coloca o voluntário sob a lente clínica. Acompanhe!
O que acontece no cérebro de quem ajuda?
Estudos de neuroimagem demonstram que atos de generosidade e cuidado ao próximo ativam circuitos cerebrais associados à recompensa, ao prazer e à conexão social, os mesmos circuitos estimulados por experiências afetivas positivas. A liberação de ocitocina, dopamina e serotonina durante e após atividades voluntárias produz uma sensação de bem-estar que não é subjetiva, mas neurologicamente mensurável. Esse estado afetivo positivo tem efeitos diretos sobre a pressão arterial, a frequência cardíaca e os marcadores inflamatórios.
Como reforça Yuri Silva Portela, a regularidade é um fator determinante nesse processo. Afinal, o engajamento voluntário esporádico produz efeitos transitórios, enquanto a prática contínua e estruturada, como a que ocorre mensalmente nas ações do Humaniza Sertão, permite que esses circuitos neurológicos sejam ativados de forma recorrente, gerando adaptações fisiológicas duradouras com impacto real sobre a saúde de quem participa.
Longevidade, propósito e o ikigai como dado clínico
A cultura japonesa nomeia de ikigai a razão de levantar da cama pela manhã, o senso de propósito que orienta a vida. Pesquisas conduzidas com populações de alta longevidade ao redor do mundo identificam de forma consistente que ter um propósito claro e orientado para o outro está entre os fatores mais fortemente associados à longevidade saudável. O voluntariado, quando vivenciado com autenticidade, funciona como uma fonte estruturada de ikigai.

Na visão de Yuri Silva Portela, esse dado tem implicações clínicas diretas que a medicina ainda subutiliza. Prescrever engajamento social e comunitário como parte de um plano terapêutico para idosos com depressão, isolamento ou perda de propósito não é metáfora, é intervenção baseada em evidências. Sob essa perspectiva, o voluntariado estruturado pode ser tão terapêutico quanto um antidepressivo, com a vantagem de não produzir efeitos adversos.
Saúde física mensurável em quem serve
Os benefícios do voluntariado sobre a saúde física vão além do bem-estar subjetivo. Estudos longitudinais acompanhando adultos acima de 50 anos demonstram que voluntários regulares apresentam menor incidência de hipertensão arterial, menor risco de doenças cardiovasculares e menor mortalidade por todas as causas em comparação com não voluntários, mesmo após o controle de variáveis como renda, escolaridade e condições de saúde preexistentes.
Yuri Silva Portela aponta que parte desse efeito se explica pelo aumento do nível de atividade física associado às ações voluntárias, mas a dimensão psicossocial é igualmente determinante. A redução do estresse crônico, o fortalecimento dos vínculos sociais e o senso de competência que o voluntariado produz em quem o pratica são mediadores biológicos com impacto cardiovascular e imunológico documentado.
O que as equipes voluntárias ensinam sobre saúde coletiva?
Além dos efeitos individuais, o voluntariado em saúde produz aprendizados coletivos que transformam a própria forma de conceber o cuidado. Na prática, profissionais que atuam em contextos comunitários vulneráveis desenvolvem uma sensibilidade clínica que os ambientes hospitalares raramente oferecem: a capacidade de enxergar o paciente dentro de seu território, de compreender as determinantes sociais do adoecimento e de construir vínculos que potencializam os resultados terapêuticos.
No fim, o doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, retrata que o voluntariado em saúde é, portanto, uma experiência de dupla cura: transforma quem recebe o cuidado e transforma quem o oferece. Em um sistema de saúde que frequentemente desumaniza tanto o paciente quanto o profissional, servir de forma voluntária e intencional é também um ato de resistência e de renovação do sentido da medicina.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



