Vacina contra o VSR na gravidez: por que tantas gestantes ainda não sabem que ela protege o bebê
Levantamento mostra que quase a metade das gestantes desconhece o calendário vacinal da gravidez, justamente na época de pico de bronquiolite em bebês.
O inverno chegou trazendo consigo o aumento natural dos casos de bronquiolite, uma das principais causas de internação de bebês nos primeiros meses de vida. Para enfrentar esse cenário, o Brasil conta hoje com uma ferramenta relativamente nova no calendário de vacinação da gestante: o imunizante contra o vírus sincicial respiratório (VSR), aplicado durante a gravidez para proteger o bebê ainda na barriga. O problema é que boa parte das futuras mães segue sem saber que essa vacina existe, ou imagina que a imunização na gestação serve apenas para proteger a própria mãe. Uma pesquisa recente revelou que esse desconhecimento é mais comum do que se imagina, o que ajuda a explicar por que a cobertura vacinal das gestantes ainda fica abaixo do ideal em várias regiões do país, mesmo com a doença concentrando seus piores números justamente nos meses mais frios do ano.
Como a vacina tomada pela gestante chega a proteger o bebê
Para entender por que essa vacina gera tantas dúvidas, vale revisitar como funciona seu mecanismo. Ao receber a vacina, geralmente entre a 28ª e a 36ª semana de gestação, a futura mãe produz anticorpos contra o vírus sincicial respiratório, e esses anticorpos atravessam a placenta e chegam ao bebê antes mesmo do partoA vacina contra o VSR previne doenças em bebês por meio da transferência de anticorpos via placenta para o feto. Esse processo é o que os médicos chamam de imunização passiva, e ele garante que o recém-nascido já chegue ao mundo com alguma proteção contra um vírus que pode levar a complicações respiratórias graves justamente nos primeiros meses de vida, fase em que o sistema imunológico do bebê ainda está em formação. A vacina foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária em abril de 2024 para uso em gestantesFoi autorizada para uso no Brasil em abril de 2024 pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária a imunização ativa materna com transferência de anticorpos para o feto, eficaz na redução do risco de internação hospitalar por infecção do trato respiratório inferior pelo VSR nos primeiros 180 dias de vida. FebrasgoFebrasgo
Estados como o Paraná já mostram o impacto dessa estratégia na prática. Segundo a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná, mais de 50 mil doses do imunizante já foram aplicadas em gestantes no estado, com cobertura vacinal chegando a quase 90% até março de 2026A cobertura vacinal chegou a 89,24% no Estado até março de 2026. O motivo da urgência é claro: os atendimentos hospitalares por bronquiolite no estado costumam disparar justamente entre maio e agosto, com o pico historicamente registrado em junhoEm 2025, os maiores volumes de procedimentos relacionados à doença foram registrados entre maio e agosto, com pico em junho, quando foram registrados 888 atendimentos hospitalares no Estado. Isso significa que quem está no terceiro trimestre de gestação agora, no auge do inverno, está exatamente na janela em que essa proteção faz mais diferença. ParanáParaná
O que a pesquisa revela sobre o desconhecimento das gestantes
Apesar dos benefícios bem documentados, uma pesquisa encomendada por uma farmacêutica ao Instituto de Inteligência em Pesquisa e Consultoria mostrou um cenário preocupante: cerca de 40% das gestantes entrevistadas não sabiam da existência de um calendário de vacinas específico para a gravidezCerca de 40% das gestantes ouvidas em uma pesquisa sobre imunização não sabiam da existência de um calendário de vacinas específico para a gravidez. Mais grave ainda, seis em cada dez gestantes ouvidas acreditavam que as vacinas aplicadas durante a gestação serviam apenas para proteger a mãe, sem perceber que a imunização também é transferida para o bebêSeis em cada dez achavam que os imunizantes são voltados apenas para a mãe, ignorando a proteção que também é transmitida para os bebês. Esse tipo de lacuna de informação ajuda a explicar por que a cobertura vacinal das gestantes, de modo geral, ainda fica bem abaixo da cobertura infantil em diversos estados. Agência BrasilAgência Brasil
A pesquisa também identificou um dado curioso sobre a vacina contra o VSR especificamente: embora 94% das gestantes já tivessem ouvido falar sobre a doença, apenas 22% sabiam que o principal causador dela é, de fato, um vírusOs dados mostram que 94% das gestantes já ouviram falar sobre a doença, mas apenas 22% sabem que o principal causador dela é um vírus. Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi que 11% das entrevistadas relataram ter recebido de seus próprios médicos a orientação de não se vacinar durante a gravidez, e a mesma proporção de profissionais de pré-natal simplesmente não comentou o assunto durante as consultas11% das entrevistadas das classes A e B receberam dos próprios médicos a recomendação de não se imunizar durante a gravidez, e 11% dos profissionais de pré-natal não falaram sobre vacinas com as pacientes. Isso reforça que parte do problema não está apenas na falta de informação da gestante, mas também na comunicação durante o próprio acompanhamento médico. Agência BrasilAgência Brasil
Como garantir que a proteção chegue na hora certa
Diante desse cenário, a orientação prática é simples: toda gestante deve levar o tema da vacinação para dentro do consultório, e não esperar que o assunto surja espontaneamente durante o pré-natal. Perguntar diretamente ao obstetra sobre o calendário vacinal da gravidez, incluindo as vacinas dTpa, influenza, hepatite B e a imunização contra o VSR, é o primeiro passo para fechar essa lacuna de informação. A vacina contra o VSR, em particular, costuma ser indicada entre a 28ª e a 36ª semana de gestação, e está disponível tanto na rede privada quanto, em alguns estados, em campanhas específicas do sistema público.
Vale destacar que a decisão sobre o momento ideal de cada vacina, assim como eventuais contraindicações, deve sempre ser tomada em conjunto com o médico responsável pelo pré-natal, considerando o histórico de saúde de cada gestante. Quando a recomendação é seguida, os resultados aparecem: entre as gestantes que receberam orientação médica para se vacinar, 96% efetivamente seguiram a indicaçãoEntre as gestantes que receberam a recomendação de tomar os imunizantes adequados, 96% seguiram a indicação. Esse número mostra que, quando a informação chega de forma clara, a adesão costuma ser alta, o que torna ainda mais importante que o tema não seja deixado de lado durante as consultas. Agência Brasil
A vacinação durante a gravidez segue sendo uma das formas mais simples e estudadas de proteger o bebê antes mesmo do parto, especialmente contra um vírus que lota emergências pediátricas todos os invernos. Os números mostram que o desafio agora não é tecnológico nem de eficácia da vacina, mas de comunicação: garantir que cada gestante saiba que esse cuidado existe e entenda como ele funciona. Para quem está no terceiro trimestre nesta época do ano, justamente o período de maior circulação do vírus sincicial respiratório, vale a pena perguntar diretamente ao médico sobre essa proteção na próxima consulta de pré-natal. É uma conversa rápida que pode fazer diferença real nos primeiros meses de vida do bebê.
Fontes consultadas:
- https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2024-12/quatro-em-cada-10-gestantes-desconhecem-calendario-vacinal-da-gravidez
- https://www.parana.pr.gov.br/aen/Noticia/Gestantes-Parana-aplicou-mais-de-50-mil-doses-da-vacina-contra-o-virus-sincicial
- https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1952-recomendacao-da-vacina-contra-virus-sincicial-respiratorio-para-gestantes
Autor: Diego Rodríguez Velázquez



