Tenho predisposição genética para engordar? Lucas Peralles revela se isso muda alguma coisa no processo
A observação é comum e genuinamente frustrante: duas pessoas com rotinas alimentares e níveis de atividade física aparentemente semelhantes apresentam composições corporais completamente diferentes. Uma acumula gordura com facilidade, a outra parece manter o peso sem grande esforço. A explicação mais acessível para esse contraste é a genética, e ela não está errada, mas está incompleta. Conforme elucida Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar e nutricionista esportivo, a genética determina predisposições, não destinos. Nesse contexto, entender o que ela realmente influencia é o que permite trabalhar com o organismo de forma inteligente, sem usar a biologia como justificativa para a ausência de estratégia.
O que a genética faz e o que ela não faz são questões que merecem uma resposta precisa, porque confundi-las compromete tanto a expectativa quanto a abordagem do processo. Confira neste artigo o que a ciência já sabe sobre o tema e o que ainda é frequentemente mal interpretado.
O que a genética realmente influencia na composição corporal?
A genética tem impacto real e documentado sobre vários aspectos da composição corporal. A taxa metabólica basal, o gasto energético em repouso, varia entre indivíduos de forma significativa, mesmo com peso e composição corporal semelhantes, e parte dessa variação tem origem genética. A distribuição regional de gordura, se o corpo tende a acumular mais na região abdominal ou periférica, também tem componente hereditário relevante. Da mesma forma, a resposta ao treinamento, velocidade de ganho muscular e facilidade de perda de gordura com exercício varia entre pessoas com histórico de atividade física similar, e essa variação é parcialmente explicada por polimorfismos genéticos que afetam a síntese proteica e o metabolismo energético.
Essas influências são reais e não devem ser descartadas. Afinal, uma pessoa com predisposição genética para acumular gordura visceral vai precisar de uma estratégia mais cuidadosa em relação ao manejo do cortisol e à qualidade da alimentação do que alguém sem essa predisposição. Ignorar o perfil genético é ignorar dados clínicos relevantes.
O que a genética não explica e onde o estilo de vida assume o controle?
O peso que a genética tem sobre a composição corporal é real, mas não é determinante no sentido absoluto do termo. Estudos com gêmeos idênticos criados em ambientes diferentes demonstram que o estilo de vida, qualidade da alimentação, nível de atividade física, qualidade do sono e manejo do estresse explicam uma proporção significativa da variação na composição corporal mesmo entre pessoas com genética idêntica. Isso significa que a predisposição genética define um campo de possibilidades, não um resultado fixo.

A genética também não explica a totalidade das diferenças observadas no cotidiano. Parte do que parece ser diferença genética é, na prática, diferença de comportamento alimentar não percebida: pessoas que parecem comer muito sem engordar frequentemente têm maior gasto energético espontâneo, ou comem menos do que percebem em determinados momentos do dia. Esses padrões comportamentais são influenciados pela genética, mas também são modificáveis com estratégia adequada.
Por que o ambiente metabólico construído pelos hábitos supera a predisposição genética ao longo do tempo?
O ambiente metabólico que uma pessoa constrói ao longo de anos de hábitos tem capacidade de modificar a expressão de genes relacionados ao metabolismo, ao acúmulo de gordura e à resposta ao treino. Esse fenômeno, estudado pelo campo da epigenética, demonstra que a genética não é um código fixo e imutável, mas um conjunto de possibilidades cuja expressão é influenciada pelo estilo de vida de forma significativa e mensurável.
Na prática, isso significa que uma pessoa com predisposição genética para acumular gordura com facilidade pode, ao longo de anos de alimentação adequada, treino consistente e sono de qualidade, modificar a forma como seus genes se expressam em relação ao metabolismo. Não de forma ilimitada, mas de forma suficiente para produzir uma composição corporal muito diferente daquela que a predisposição genética isolada produziria. Conforme examina Lucas Peralles, a genética define o ponto de partida. O estilo de vida define até onde o processo consegue ir a partir dele.
Como trabalhar com a predisposição genética em vez de lutar contra ela?
Conhecer a própria predisposição genética não é uma sentença. É um dado clínico que permite personalizar a estratégia de forma mais precisa. Por sua vez, alguém com tendência a acumular gordura visceral se beneficia mais de intervenções que reduzem o cortisol e melhoram a sensibilidade à insulina do que de restrições calóricas genéricas. Alguém com metabolismo basalmente mais lento precisa de estratégias que preservem e desenvolvam massa muscular para compensar esse menor gasto em repouso.
Lucas Peralles ressalta que o objetivo não é vencer a genética, o que seria biologicamente impossível, mas entender o que ela predispõe e construir uma estratégia que trabalhe dentro dessa realidade de forma inteligente e eficiente. Quando o protocolo está alinhado com o perfil metabólico individual, o processo avança com muito menos resistência do que quando ignora essas particularidades.



