Inteligência artificial nas escolas: o que os pais de crianças pequenas precisam saber sobre as novas regras
Diretrizes aprovadas pelo CNE limitam o uso autônomo de IA por crianças e reforçam a importância da supervisão adulta.
A inteligência artificial entrou de vez na rotina das famílias, mas uma nova decisão educacional brasileira reforça que crianças pequenas não devem ter contato autônomo com essas ferramentas. Em 1º de setembro, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou diretrizes para orientar o uso de inteligência artificial nas escolas e universidades, estabelecendo que estudantes da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, até o 5º ano, não tenham acesso direto, individual e não supervisionado a ferramentas de IA, especialmente as generativas. O texto ainda depende de homologação do Ministério da Educação. (Folha de S.Paulo)
A mudança interessa também aos pais de bebês e crianças em idade pré-escolar porque estabelece um princípio que ultrapassa os muros da escola: tecnologia não deve substituir interação humana, brincadeira, linguagem, vínculo familiar e acompanhamento adulto durante os primeiros anos. Para entender o impacto dessa decisão, é preciso diferenciar o uso pedagógico planejado da exposição livre a aplicativos e plataformas digitais. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), por sua vez, mantém recomendações específicas para reduzir a exposição de crianças pequenas às telas e preservar atividades essenciais ao desenvolvimento. (Sociedade Brasileira de Pediatria)
O que as novas regras de inteligência artificial dizem sobre crianças
As diretrizes aprovadas pelo CNE não significam que a inteligência artificial esteja completamente proibida na educação infantil ou nos primeiros anos escolares. O que muda é a forma como a criança pode entrar em contato com essas ferramentas: quando houver uso de IA nessa etapa, ele deverá ocorrer dentro de atividades pedagógicas planejadas, conduzidas e mediadas por profissionais da educação, sem interação direta e livre da criança com o sistema. O texto também determina atenção à proteção dos dados pessoais dos estudantes e prevê comunicação às famílias quando recursos automatizados forem utilizados. (Folha de S.Paulo)
Para os pais, essa diferença é fundamental. Uma professora pode, por exemplo, utilizar uma ferramenta tecnológica como apoio para preparar uma atividade ou apresentar determinado conteúdo à turma, enquanto permitir que uma criança pequena converse sozinha com um chatbot é outra situação, que envolve autonomia digital, coleta de dados, exposição a respostas inadequadas e capacidade de avaliar criticamente aquilo que a ferramenta apresenta. As novas diretrizes procuram justamente preservar a mediação humana nas fases em que a criança ainda está construindo habilidades cognitivas, sociais e emocionais básicas. (Folha de S.Paulo)
A decisão também estabelece uma abordagem baseada em níveis de risco para diferentes usos da IA. Aplicações consideradas de baixo risco podem auxiliar tarefas como organização de materiais e acessibilidade, enquanto usos de maior risco exigem supervisão mais rigorosa ou podem ser proibidos, especialmente quando envolvem decisões relevantes sobre estudantes. Entre os exemplos citados nas diretrizes estão restrições a sistemas que façam reconhecimento de emoções, determinem trajetórias educacionais ou utilizem dados infantis para publicidade. (Folha de S.Paulo)
Essa preocupação faz sentido para famílias que convivem com crianças cada vez mais expostas a celulares, tablets, televisores e aplicativos. A questão não é apenas quanto tempo uma criança permanece diante de uma tela, mas o que ela deixa de fazer durante esse período. Brincar, conversar, movimentar-se, observar o ambiente, manipular objetos, ouvir histórias e interagir presencialmente com adultos são experiências importantes para o desenvolvimento infantil e não podem ser substituídas simplesmente por uma ferramenta que oferece respostas rápidas.
Por que a tecnologia exige mais cuidado nos primeiros anos
A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou em 2026 suas orientações sobre o uso saudável de telas, tecnologias e mídias em creches, berçários e escolas. A entidade destaca que a expansão acelerada das tecnologias digitais modificou profundamente a infância e reforça a necessidade de planejamento, supervisão e responsabilidade compartilhada entre família, escola e profissionais de saúde. (Sociedade Brasileira de Pediatria)
Para a primeira infância, a SBP recomenda evitar telas para crianças de zero a dois anos, inclusive exposição passiva, e limitar a uma hora diária o uso por crianças de dois a cinco anos, sempre com supervisão de pais ou responsáveis. A entidade também alerta que a exposição precoce e excessiva pode estar associada a dificuldades relacionadas ao sono, aprendizagem, comportamento e desenvolvimento, além de defender que a tecnologia não seja utilizada como substituta de afeto e interação humana. (Sociedade Brasileira de Pediatria)
Isso ajuda a compreender por que uma notícia sobre inteligência artificial nas escolas também interessa diretamente aos pais de bebês. A criança começa a formar hábitos digitais muito antes de aprender a escrever ou utilizar uma ferramenta de IA para fazer uma atividade escolar. Se o contato com telas já acontece em casa durante a primeira infância, a família pode estabelecer desde cedo uma relação mais saudável com a tecnologia, evitando que o celular ou o tablet se transforme na principal fonte de entretenimento, conforto ou distração.
Outro ponto importante é que crianças pequenas ainda não têm maturidade para compreender plenamente como funcionam algoritmos, publicidade personalizada, coleta de dados ou respostas produzidas artificialmente. Documento da SBP sobre primeira infância alerta que crianças menores de seis anos apresentam dificuldades para compreender quem está por trás das telas e podem ser especialmente vulneráveis a mecanismos digitais criados para aumentar o engajamento. A entidade também chama atenção para recursos como reprodução automática, recompensas e outros mecanismos capazes de prolongar o tempo de utilização. (Sociedade Brasileira de Pediatria)
Como os pais podem preparar os filhos para uma infância mais segura com tecnologia
A principal atitude dos pais não precisa ser afastar completamente a tecnologia da vida familiar, mas estabelecer limites coerentes com a idade. Para bebês e crianças menores de dois anos, a recomendação da SBP é evitar telas; depois dessa idade, o uso deve ser limitado, acompanhado por adultos e inserido em uma rotina que preserve sono, alimentação, movimento, brincadeiras e convivência presencial. A própria entidade recomenda evitar telas durante as refeições e antes do horário de dormir, além de incentivar atividades ao ar livre e momentos de interação familiar. (Sociedade Brasileira de Pediatria)
Também vale observar o comportamento dos adultos. Uma criança aprende muito pela imitação e pode receber mensagens contraditórias quando os pais estabelecem limites para o celular enquanto permanecem constantemente conectados durante as refeições, brincadeiras ou momentos de conversa. Criar períodos em que toda a família fica longe das telas pode ser mais efetivo do que simplesmente retirar o aparelho das mãos da criança. Para os pequenos, especialmente bebês, o contato olho no olho, a conversa, o colo, a leitura e a brincadeira compartilhada continuam sendo experiências insubstituíveis.
Quando a criança chegar à idade escolar, a família também poderá perguntar à instituição de ensino como ferramentas de inteligência artificial estão sendo utilizadas. É importante saber se existe supervisão de professores, quais dados são coletados, para que finalidade são utilizados e se os responsáveis são informados sobre a utilização de sistemas automatizados. As novas diretrizes do CNE reforçam justamente princípios de transparência, proteção de dados, supervisão humana e uso da IA como instrumento de apoio, e não como substituta do professor. (Folha de S.Paulo)
Para pais de bebês, portanto, a discussão sobre inteligência artificial começa muito antes do primeiro trabalho escolar. A infância precisa de tecnologia compatível com cada etapa do desenvolvimento, e não de acesso irrestrito apenas porque determinado recurso está disponível. A recomendação é construir hábitos digitais gradualmente, preservar momentos sem telas e conversar com o pediatra sobre dúvidas relacionadas ao comportamento, sono, linguagem ou desenvolvimento da criança. O acompanhamento regular com pediatra é especialmente importante quando os pais percebem mudanças persistentes nesses aspectos, enquanto questões específicas da gestação e do período pós-parto devem ser discutidas com obstetra ou profissional responsável pelo pré-natal.
A decisão do CNE sinaliza uma mudança importante na relação entre infância e tecnologia: a pergunta deixou de ser apenas se uma ferramenta é moderna ou útil e passou a incluir para qual idade ela é adequada, quem supervisiona seu uso e quais riscos existem. Para as famílias, essa lógica pode ser aplicada desde os primeiros anos, mesmo quando a criança ainda não utiliza inteligência artificial. A tecnologia pode fazer parte da vida familiar, mas não deve ocupar o espaço de vínculos, sono, movimento, brincadeiras e experiências reais. Quanto mais cedo os adultos estabelecerem limites consistentes e fizerem escolhas conscientes, maiores são as chances de que as crianças cresçam aprendendo a utilizar recursos digitais com segurança, autonomia progressiva e pensamento crítico. (Sociedade Brasileira de Pediatria)



