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Transformação digital e organizacional: o papel do líder na era da tecnologia, na visão de Marcio Alaor de Araujo

Com 83% das transações bancárias do país feitas em canais digitais, Marcio Alaor de Araujo, executivo do mercado financeiro, nota que a tecnologia já venceu a etapa da adoção. O desafio agora é organizacional: preparar lideranças capazes de conduzir equipes inteiras em um trabalho que muda de forma a cada inovação.

O dado vem da mais recente Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, que também projeta R$ 50,4 bilhões em investimentos do setor em tecnologia neste ano. Números dessa escala mostram que a dúvida deixou de ser se as empresas vão se digitalizar e passou a ser como fazer isso sem perder gente.

É nesse ponto que transformação digital e transformação organizacional se tornam o mesmo assunto. Sistemas novos exigem estruturas, papéis e hábitos novos, e quem faz essa ponte é o líder. A seguir, veja o que muda nessa função.

O trabalho muda antes do organograma

Um gerente de agência que antes passava o dia processando operações hoje recebe clientes que já resolveram quase tudo pelo celular. Quem o procura traz dúvidas complexas sobre crédito ou investimentos. A função deixou de ser operacional e se tornou consultiva, muitas vezes sem que o cargo mudasse de nome.

Esse descompasso é comum. A tecnologia altera a rotina mais rápido do que as empresas redesenham descrições de cargo, metas e trilhas de carreira. O resultado são profissionais avaliados por critérios antigos enquanto executam tarefas novas, o que gera frustração e insegurança sobre o próprio futuro.

O setor bancário tem respondido com capacitação em larga escala. Segundo a mesma pesquisa, 226,1 mil profissionais passaram por treinamentos no último ciclo. Treinar, porém, resolve apenas metade do problema: a outra metade é dar sentido ao novo papel dentro da organização.

O líder como tradutor entre sistemas e pessoas

Marcio Alaor de Araujo destaca que a principal função do líder nesse contexto é traduzir. Ele converte a linguagem da tecnologia em impacto concreto para cada área e, no sentido inverso, leva à alta gestão as dificuldades que só aparecem na ponta.

Marcio Alaor de Araujo
Marcio Alaor de Araujo

Essa tradução exige conhecer a operação por dentro. Um líder que nunca viveu a rotina das equipes tende a subestimar o esforço de aprender um sistema novo enquanto as metas continuam correndo. Já quem conhece o chão da empresa calcula prazos realistas e antecipa onde a resistência vai surgir.

Também cabe ao líder proteger o espaço para o erro, visto que nenhuma equipe domina uma ferramenta nova sem tentativas malsucedidas no começo. Punir cada falha na fase de adaptação ensina as pessoas a evitar a novidade, justamente o comportamento que a transformação pretende eliminar.

Governança não pode ficar para depois

Automatizar decisões de crédito, por exemplo, acelera o atendimento, mas transfere para o algoritmo escolhas que antes passavam por análise humana. Sem regras claras sobre quem responde por essas decisões, a empresa ganha velocidade e perde controle sobre riscos que só aparecem meses depois.

Sob esse olhar, Marcio Alaor de Araujo sugere que governança ética e gestão de risco entrem no projeto desde o primeiro dia. Critérios de uso de dados, revisão periódica dos modelos e canais para contestar decisões automatizadas precisam fazer parte do desenho, e não surgir como correção depois de um problema.

A cibersegurança segue a mesma lógica. Quanto mais processos migram para o digital, maior a superfície exposta a ataques e fraudes. A proteção deixou de ser assunto exclusivo da área técnica e passou a depender do comportamento diário de cada colaborador.

A experiência que nenhum algoritmo substitui

A tecnologia amplia a capacidade de análise, mas não decide sozinha o que uma empresa quer ser. Valores, prioridades e o tipo de relação que se pretende construir com clientes e equipes continuam sendo escolhas humanas, e são elas que orientam o uso de cada ferramenta.

Profissionais atravessam várias ondas de inovação ao longo de uma carreira. Em cada uma, os que se adaptam melhor costumam ser os que tiveram líderes dispostos a explicar, ouvir e acompanhar de perto a curva de aprendizado.

Com mais de quatro décadas no setor financeiro, Marcio Alaor de Araujo explica que as mudanças tecnológicas passam, enquanto a confiança construída entre líderes e equipes permanece. Na era da tecnologia, liderar bem continua sendo, antes de tudo, cuidar das pessoas que fazem a transformação acontecer.

 

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