Tecnologia

Brinquedos com inteligência artificial preocupam especialistas e pais no Brasil

Pesquisas apontam respostas impróprias e coleta de dados de voz em bonecos e pelúcias conectados à IA voltados para crianças pequenas.

Bonecos que conversam, pelúcias que respondem perguntas e assistentes de brincadeira movidos por inteligência artificial generativa já fazem parte da rotina de muitas casas com crianças pequenas, e o mercado por trás desse fenômeno cresce em ritmo acelerado em todo o mundo. A promessa é atraente: aprendizado personalizado, companhia constante e suporte especial para crianças com perfis neurodivergentes. Mas, junto com o entusiasmo das famílias, cresce também a preocupação de pediatras, pesquisadores e organismos como a Unicef sobre os efeitos desses dispositivos no desenvolvimento infantil. A dúvida que fica para quem está pensando em colocar um desses brinquedos no quarto do filho é direta: vale a pena trocar parte da interação humana da primeira infância por um boneco que escuta, fala e aprende com a criança o tempo todo?

Como funcionam os brinquedos com IA que chegam aos quartos infantis

O mercado de brinquedos inteligentes já movimenta cerca de 35 bilhões de dólares globalmente e tem projeção de alcançar 270 bilhões de dólares até 2035, um salto que mostra a velocidade com que essa tecnologia está sendo incorporada ao universo infantilO mercado de brinquedos com IA movimenta cerca de US$ 35 bilhões e pode chegar a US$ 270 bilhões até 2035. Nos Estados Unidos, a parceria entre a fabricante de brinquedos Mattel e a empresa de inteligência artificial OpenAI exemplifica esse movimento, com o objetivo declarado de criar experiências educativas baseadas em modelos generativos de linguagemNos Estados Unidos, a parceria entre a Mattel e a OpenAI visa criar experiências educativas utilizando modelos generativos. Na China, mais de 1.500 empresas devem responder por boa parte da expansão global desse setor na próxima décadaNa China, mais de 1.500 empresas estão previstas para contribuir com 40% da expansão global do setor na próxima década. Portal Tela + 2

Na prática, esses brinquedos são bonecos, pelúcias ou outros dispositivos equipados com microfones e conexão à internet, capazes de escutar a criança, manter conversas e até lembrar de interações anterioresBrinquedos inteligentes são bonecos, pelúcias ou dispositivos conectados a IA que ouvem, falam e lembram conversas, com potencial de personalizar o aprendizado e ajudar crianças neurodivergentes. A ideia por trás do produto é positiva em diversos aspectos, já que a personalização pode beneficiar crianças com diferentes ritmos de aprendizado e necessidades específicas, oferecendo estímulos adaptados ao perfil de cada pequeno usuário. O problema começa a aparecer quando se analisa o que esses dispositivos fazem com os dados coletados durante essas conversas supostamente inocentes entre a criança e o brinquedo. Portal Tela

Os riscos identificados por pesquisas e pela Unicef

Estudos sobre o funcionamento desses brinquedos levantaram dados que chamam atenção de pais e especialistas. Levantamentos indicam que alguns desses dispositivos permanecem escutando por longos períodos, enviando os dados de voz captados para servidores centrais das empresas fabricantesPesquisas indicam que alguns brinquedos ficam ouvindo por longos períodos, enviando dados de voz a centrais. Mais preocupante ainda, análises encontraram que 27% das respostas geradas pela IA em interações com crianças foram consideradas impróprias para a faixa etária, o que ajuda a explicar por que 74% dos pais consultados nessas pesquisas afirmaram temer que o brinquedo faça sugestões perigosas aos filhos27% das respostas são impróprias para menores e 74% dos pais temem sugestões perigosas. Portal TelaPortal Tela

A Unicef, por sua vez, tem alertado para um risco que vai além da segurança dos dados: o impacto da IA generativa no tempo e na atenção que crianças pequenas deveriam dedicar à interação humana, fundamental para o desenvolvimento cognitivo e afetivo nessa fase da vidaO risco está no que a IA faz com o tempo e a atenção dessa criança, que deveriam estar sendo investidos nessa interação humana que é tão importante para o desenvolvimento cognitivo e afetivo dela. Segundo especialistas ouvidos pela organização, substituir essa experiência humana por uma tela ou um dispositivo de IA generativa introduz uma variável cujos efeitos de longo prazo ainda não foram estudados com profundidade suficiente, já que se trata de uma tecnologia recenteQuando se substitui essa experiência por uma tela, introduz-se uma variável que ainda não tem estudos longitudinais sobre os efeitos, pois a IA generativa ainda é uma tecnologia nova. Jornal da USPJornal da USP

As diferenças de regulamentação entre países

A forma como diferentes países lidam com esses brinquedos varia bastante, e essa divergência regulatória reflete a dificuldade de equilibrar inovação e proteção infantil em um mercado que se move mais rápido do que a legislação. Nos Estados Unidos, foi aprovada uma lei conhecida como Guard Act, que proíbe expressamente o uso desses produtos por menores de 18 anos, adotando uma postura de restrição direta diante das incertezas sobre os efeitos do contato prolongado entre crianças e IA generativaO Guard Act americano proíbe uso por menores de dezoito anos. Já a União Europeia optou por um caminho diferente, com o chamado AI Act, que regula o setor mas permite o uso desses dispositivos por crianças desde que sob supervisão adequada de adultos responsáveisO AI Act europeu regula e permite uso com supervisão. Portal TelaPortal Tela

Essa diferença de abordagem mostra que ainda não existe consenso internacional sobre o melhor caminho regulatório para brinquedos conectados à inteligência artificial voltados ao público infantil. No Brasil, a discussão sobre proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital já avança em outras frentes, como as novas regras para redes sociais conhecidas como ECA Digital, mas a regulamentação específica para brinquedos com IA generativa ainda é incipiente, o que reforça a importância de que pais e responsáveis assumam, por conta própria, um papel ativo de avaliação antes de trazer esses produtos para dentro de casa.

O que pais e responsáveis podem considerar antes de comprar

Diante desse cenário, especialistas recomendam cautela redobrada antes de presentear uma criança pequena com um brinquedo conectado à inteligência artificial. O primeiro passo é verificar, junto ao fabricante, quais dados são coletados durante o uso, onde são armazenados e por quanto tempo, já que a coleta de voz de crianças levanta questões de privacidade que vão muito além das preocupações tradicionais com brinquedos eletrônicos comuns. Também vale observar se o produto possui algum tipo de controle parental que permita acompanhar ou limitar o conteúdo das interações, reduzindo o risco de exposição a respostas inadequadas geradas pela inteligência artificial.

Mais importante do que qualquer configuração técnica, porém, é manter o equilíbrio entre o tempo que a criança passa interagindo com o brinquedo e o tempo dedicado a brincadeiras, conversas e vínculos com adultos e outras crianças. Especialistas em desenvolvimento infantil reforçam que nenhuma tecnologia substitui a presença humana na primeira infância, especialmente em uma fase tão sensível para a formação da linguagem, da regulação emocional e da socialização. Em caso de dúvidas sobre o desenvolvimento da criança ou sobre o uso adequado de telas e dispositivos conectados, a orientação é sempre buscar o acompanhamento do pediatra, profissional mais indicado para avaliar as particularidades de cada fase do crescimento infantil.

Os brinquedos com inteligência artificial chegaram para ficar, impulsionados por um mercado que deve crescer de forma expressiva na próxima década. Isso não significa, porém, que toda família precise correr para adotar essa tecnologia sem antes entender os riscos envolvidos, especialmente os ligados à privacidade dos dados e ao tempo de interação humana que pode ser deslocado por esses dispositivos. Equilíbrio parece ser a palavra-chave nesse momento de transição: aproveitar os benefícios reais de personalização que a tecnologia pode oferecer, sem perder de vista que nenhum boneco conectado substitui o olhar atento de um adulto de confiança no dia a dia da criança.

Fontes consultadas:

Autor: Diego Rodríguez Velázquez

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo